Sexo
é moda?
Como todas as linguagens, a das roupas levou séculos para ser construída, mantendo
um diálogo permanente com a política, a religião e a economia.
Freud, o pai da psicanálise, dizia que o único espaço democrático era a praia,
pois lá ninguém conseguia exibir seus brasões. Estava se referindo, claro, aos
sinais externos de riqueza e poder cultivados pela sociedade burguesa e reprimida
que ele tinha como clientela. Vestir-se é, pois, recriar o corpo, cobrindo-o
de cultura. Talvez por isso a nudez dos índios tenha perturbado tanto os portugueses
que desembarcaram em terras brasileiras.
Na história da moda, o Gênesis é a primeira referência entre o nu e o pecado.
Depois de Adão ter provado o fruto do conhecimento, passou a distinguir o certo
e o errado e viu que o certo era esconder o sexo atrás de um folha de parreira.
Estava estabelecida, assim, uma relação íntima entre roupa e sexo. O signo,
portanto, é o da repressão.
Ao longo dos séculos, o vestuário se esforçou para separar a identidade sexual.
Os recursos, para isso, são descaradamente maniqueístas: rosa e azul, calça
e vestido, sobriedade e futilidade. Tudo para deixar claro que existem duas
formas diferentes e que estas devem ser respeitadas. Menino ou menina? A moda
exige definições.
O vestuário masculino, ao contrário do que se pensa, sempre se mostrou mais
transgressor, definindo o padrão que deveria ser seguido. As roupas femininas
são uma construção do imaginário masculino e, conseqüentemente, do patriarcado.
Por isso não apresentam sinais de uma identidade própria. No máximo, é uma moda
imitativa, embora tenha se tornado mais inquieta no último século.
Hoje o conceito de moda está diretamente ligado à expressão da sexualidade.
Homens e mulheres se vestem de maneira sexy. Contudo, quando nos deparamos com
a vestimenta transexual, ficamos perplexos e recorremos imediatamente à organização
da diferença entre masculino e feminino. Haverá o dia que deixaremos de nos
fixar somente nestas duas categorias?