Nelson Rodrigues

Nascido em 1912 e morto em 1980, Nelson Rodrigues é, de forma quase incontestável, o maior dramaturgo brasileiro.

Uma das qualidades maiores de seu teatro é a forma clássica que conseguiu dar a textos que tratavam de temas urbanos cariocas. Ele escreveu tragédias com a densidade imprimida pelos gregos, 2500 anos atrás. Mas esse seria um caminho conservador se Nelson não tratasse suas peças como folhetins pornográficos, cujo tema principal é o sexo.

Seus personagens são safados, incestuosos, adúlteros, homosexuais, escandalosos. As tramas envolvem traições, cupidez e morte. Os cenários vão das residências humildes da zona norte do Rio, palcos de crimes e taras, até as mansões onde os ricos chafurdam na lama moral, mais ou menos culpados ou culposos.

A vida de Nelson Rodrigues foi tão trágica e rocambolesca quanto sua obra. E sua postura política em relação ao poder e aos costumes tão reacionária quanto inversamente foi revolucionária sua obra.

A obra de Nelson Rodrigues é, na História da Arte, um dos grandes exemplos da independência de um legado em relação ao seu autor.


Flagrante carioca

Nelson Rodrigues nasceu no Recife, PE. Era filho do jornalista Mario Rodrigues, que veio para o Rio de Janeiro escapando de intrigas políticas em seu estado. O início do século alimentava práticas jornalísticas que hoje são consideradas absurdas, ou pelo menos que ninguém admite exercer. A imprensa era uma arma na mão dos líderes políticos, e as medições de força entre o governo e os jornais aconteciam diariamente.

O pai de Nelson, talentoso editorialista e redator, rapidamente firmou-se no Correio da Manhã, onde escrevia contra Epitácio Pessoa, presidente da República. Um desses artigos provocou o fechamento do Correio da Manhã e a condenação de Mario Rodrigues a um ano de prisão. Dois anos depois ele estava na rua de novo, editando seu próprio jornal, A Manhã. Nelson tinha 13 anos e estreava como repórter de polícia. Essa era, na época, a melhor sessão do jornal. Os dramas aconteciam e viravam notícia, quase sempre de forma passional. A criminalidade não tinha o profissionalismo de hoje, e a maioria dos delitos envolvia amor e vingança, elementos que depois viriam a povoar a ficção teatral de Nelson.


O destino colaborador

Os irmãos de Nelson também eram homens excepcionais. Mário Filho é o jornalista que deu nome ao Maracanã, em homenagem merecida por seus esforços em prol da construção da grande praça de esportes. O outro irmão, mais novo, Roberto Rodrigues, foi brilhante caricaturista e desenhista, e incorporava temas de sexo e morte a sua obra, como mais tarde Nelson faria. Roberto foi assassinado na redação do jornal por motivos passionais, como as muitas tramas que sempre envolveram a vida de Nelson.

A morte do filho foi demais para Mário Rodrigues e um derrame cerebral o apanhou em casa, matando-o alguns dias depois.

Os filhos Milton e Mário Filho assumiram a direção do jornal da família, A Crítica. Mais um golpe estava destinado à família Rodrigues. Quando a revolução de 30 chegou ao poder eles apoiavam o recém eleito presidente Júlio Prestes, que não chegaria a tomar posse. Quando o velho regime caiu, os simpatizantes da revolução saíram à rua, e "empastelaram" os jornais de oposição. A crítica estava entre eles. O chamado "empastelamento" consistia em entrar nas dependências dos jornais e quebrar tudo. A família Rodrigues ia financeiramente a pique, depois de haver sofrido as mortes de dois dos seus principais entes.


Da tragédia pessoal à obra trágica

Seria preciso um estudo de exegese (origem da obra) sobre as peças de Nelson Rodrigues para saber-se com mais segurança o quanto sua vida moldou seus dramas teatrais. Não é difícil arriscar sobre o muito que o influenciou. Com a derrocada financeira da família e as necessidades financeiras imensas, Nelson contraiu tuberculose a ponto de, em 1934, ser internado em sanatório.

Convivendo com a morte num hospital de tísicos, o autor preparava em seu poderoso inconsciente de escritor uma obra sem igual no país. Esse trabalho ainda demoraria alguns anos para vir à tona, em março em 1942 estreava A mulher sem pecado. O público não compareceu, mas um dos maiores poetas brasileiros, Manuel Bandeira, comentou com o jovem Roberto Marinho, patrão de Nelson, que ele era um autor talentosíssimo. Mais: Álvaro Lins, o mais importante crítico literário de então, e até hoje um dos maiores do país, escreveu que "ele falava de sentimentos dramáticos e essenciais da vida humana". Começava a consagração do "pornógrafo reacionário".


O vestido revolucionário

Logo depois, Nelson escreveu uma obra prima, a primeira de muitas: Vestido de noiva.

No ano de 1943 uma peça cuja ação se passasse dentro da cabeça de uma mulher que sofrera um acidente, com vários níveis de leitura entre realidade e consciência era uma verdadeira revolução. Vestido de Noiva mantém sua incrível comunicação, mais de 50 anos depois.

O êxito da montagem de Vestido de Noiva só aconteceu porque estava no Rio, fugindo da guerra, o teatrólogo polonês Ziembinski, que, talentoso e formado pelo teatro europeu, transformou a peça de Nelson numa montagem de vanguarda. O espetáculo, montado no teatro municipal do Rio de Janeiro, e assistido pela elite do país, foi um sucesso mais de crítica que de público. Mas Nelson era agora um autor conhecido.


Uma tal Suzana

Em 1944 Nelson vai trabalhar nos Diários Associados, editores da revista O Cruzeiro, então o veículo de maior tiragem do país. É convocado para escrever o folhetim para o jornal. Folhetins são novelas escritas em capítulos para ser publicadas em jornal, e arrastavam grande público até as bancas. Nelson não queria conspurcar seu nome de autor sério escrevendo esses textos descartáveis, e assumiu o pseudônimo de Suzana Flag.

Sua primeira história, Meu destino é pecar, foi um sucesso tão grande que a tiragem do jornal pulou, em alguns meses, de 3 mil para 30 mil exemplares. O texto foi transformado em livro com tiragens de 300 mil exemplares e recebeu até uma adaptação radiofônica. Mas o sucesso quase traga sua capacidade de dramaturgo. No embalo do suecesso, Nelson foi pressionado a escrever outro folhetim, Escravas do amor, que teve sucesso semelhante.

As histórias de Nelson agradavam ao grande público pela quantidade de dados que pareciam reais, ou pela parcela da realidade que interessava aos leitores. Eram tramas com adúlteras, homens traídos, amantes ardorosas, tudo embalado no mais desvairado jorro emocional.


Indecente e doentio

Em 1946 Nelson escreveu Álbum de família, uma tragédia incestuosa de proporções bíblicas. Os censores do governo Dutra proibiram a peça em todo o país sob a alegação de que "preconizava o incesto" e "incitava ao crime". A peça rotulou Nelson, definitivamente, de autor maldito. O texto só foi montado 19 anos depois, em 1967.

Em Álbum de família, a estrutura nuclear básica da sociedade serve para provocar e reprimir os mais diferentes sentimentos entre seus membros, gerando uma tragédia exemplar.

Em 1948 Nelson escreve Anjo negro. Outra bomba. Desta vez o protagonista negro fura os olhos do filho para que esse não saiba de quem é filho. Nova proibição. Mas Nelson lutou por ela, indo até o ministro da Justiça para que a peça fosse liberada e, finalmente, conseguiu. Gerou escândalo. Ismael, o protagonista, é um negro que vive toda a tragédia de não aceitar a sua cor e uma sucessão de infortúnios decorrem dessa realidade.


O comunista e inimigo da família

O teatro de Nelson Rodrigues, por mergulhar na realidade e fazer transparecer na metáfora artística todas as contradições do homem médio brasileiro, levantava a ira de falsos moralistas, como Carlos Lacerda, que em 1950 o acusava de comunista.

Ora, Nelson era profundamente reacionário, tinha horror a qualquer mudança no sistema político, e apenas era utilizado como bucha de canhão na batalha ideológica que então se travava no mundo.

Sua arte denunciava, talvez sem a consciência total dele, a hipocrisia no trato das questões relacionadas ao sexo. Por essa dupla postura, de conservador como homem e revolucionário como artista, Nelson pagou o preço de ser odiado por ambos os lados.

Enquanto tudo isso era discutido, Nelson continuava destilando obras primas. Em 1953 foi A falecida. A história de Zulmira, que só quer da vida um enterro de luxo. O marido só pensa em futebol. Ela torna-se amante do dono da funerária para ter a garantia do funeral suntuoso. Depois foi a comédia Os sete gatinhos, em seguida as tragédias O Boca de ouro e Beijo no asfalto.

No Beijo... Nelson coloca, pela primeira vez no teatro brasileiro, a mídia, (assim como havia feito com o futebol, em A falecida). Um homem, agonizando após ser atropelado por uma lotação, pede um beijo a um desconhecido. Esse cede. Um jornalista fotografa, e tudo muda na vida do protagonista. Seu teatro deixa claro que o sexo é uma forma de opressão social e pessoal.


O eterno maldito

Nelson desapareceu em 1980, após escrever 17 peças, 9 romances, 2 livros de contos e 4 de crônicas. Sobre seus textos foram feitos 21 filmes. Suas peças começam a ser montadas na Europa, onde ele é conhecido como o "Almodóvar Original", devido a semelhança na abordagem do diretor espanhol.

Até hoje Nelson Rodrigues é um autor controverso. Suas peças não têm um pingo de intenção redentora. Ele tem parentesco com Jean Genet, O'Neil, e outros malditos. É um deles. Mas seu fascínio vem da profunda identidade que seus personagens têm com o humano, suas glórias e misérias.

 

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